ESTUDO DA PRODUÇÃO
DA HABITAÇÃO
EM ALVENARIA ESTRUTURAL CERÂMICA
M. Sc. Marcus Vinícius Alvarenga
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Centro de Tecnologia, Escola de Engenharia
D. Sc. Osvaldo Luís Gonçalves
Quelhas
Universidade Federal Fluminense - UFF
Centro de Tecnologia, Escola de Engenharia
Introdução
O homem vem buscando, desde os primórdios, meios de se
proteger contra as adversidades do mundo em que vivemos. Porém,
hoje em dia, muito diferente dos tempos passados, a habitação
sofreu alguns impactos com o advento da tecnologia. As necessidades
do homem têm crescido em função desta, e do
que se apresenta de forma clara, das facilidades e do bem estar
que ela traz. Com isso, observa-se um grande número de
processos, técnicas e métodos construtivos. Porém,
sabe-se que, economicamente, cada produto deve atender a características
próprias do seu público potencial, ou melhor, do
seu mercado em potencial.
Descrição do Processo Construtivo
Faz-se necessária uma exposição sobre o
processo construtivo tradicional (estrutura em concreto armado
e alvenaria de vedação) de forma que se possa formar
a idéia sobre a construtibilidade do processo construtivo
em alvenaria estrutural. Sendo assim:
Processo Construtivo Tradicional
Processo Construtivo Alvenaria Estrutural
Laje
O carregamento das lajes é transferido como carregamento
distribuído para as vigas. O carregamento lajes é
transferido como carregamento distribuído para o cintamento.
Vigas
O carregamento distribuído das vigas é transferido
para os pilares como carregamento concentrado. O carregamento
distribuído das cintas é transferido para as paredes
estruturais como carregamento distribuído.
Pilares
O carregamento concentrado dos pilares é transferido
para as fundações como carregamento concentrado.
Não existe propriamente um pilar, o que há é
uma parede estrutural. O carregamento distribuído das paredes
estruturais é transferido para as fundações
como carregamento distribuído.
Fundação
O carregamento concentrado nas fundações
é transferido para o terreno de forma distribuída
ou concentrada conforme o tipo de terreno. O carregamento distribuído
nas fundações é transferido para o terreno
de forma distribuída ou concentrada conforme o tipo de
terreno.
Alvenaria Estrutural Não Armada
Estruturas de alvenaria construídas com blocos assentados
com argamassa, onde as armaduras, só têm finalidade
construtiva e de amarração. Não são
consideradas na absorção dos esforços calculados,
ou seja, os blocos resistem inteiramente aos esforços solicitantes
na alvenaria. Sendo assim, são autoportantes.
O Conceito de construtibilidade
Deve-se definir o conceito de Construtibilidade para que se possa
entender sua finalidade. Pode-se, então, iniciar pelo seu
significado morfológico, como foi descrito por SABBATINI
(1989): "habilidade (de algo) em ser construtível"
ou “a qualidade do que é capaz de ser construído”.
"Logo, vários são os motivos para aplicação
imediata de formas para a melhoria da construtibilidade”,
como por exemplo:
• O inter-relacionamento entre projetistas e executores
de projetos desde o início da fase de projeto.
• O processo de produção não ser como
na indústria fabril, isto é, em linha de produção.
• O produto final ser singular, ou melhor, com características
próprias de um produto único.
Pode-se, ainda, utilizar a construção elaborada
por OLIVEIRA (1994): "Como resultado de um projeto que leve
em conta a construtibilidade espera-se obter um edifício
de construção mais rápida, mais fácil
e mais barata."
A construtibilidade da alvenaria estrutural
Para que se possa avaliar a construtibilidade de um processo,
pode-se fazer comparações em relação
à melhoria do próprio processo ou mesmo entre processos
diferentes. Desta maneira, aproveita-se para ilustrar certos pontos
que deverão ser alvo constante de melhoria da construtibilidade:
Processo Tradicional
- Processo Alvenaria Estrutural
Alvenaria - Funciona como componente
de vedação e não participa ativamente no
cálculo de absorção de cargas da construção.•
Descontinuidade nas espessuras de paredes e estrutura. - Funciona
como componente estrutural e de vedação, porém
participa ativamente no cálculo de absorção
de cargas da construção.• Sem descontinuidade.
Fundações - Dependendo
do tipo de fundação adotada, o carregamento poderá
ser concentrado ou distribuído.• Podendo implicar
maior volume das fundações. - O carregamento geralmente
será distribuído sobre o solo. - O que implica menor
volume das fundações.
Cronograma - Impõe etapas
mais longas tendo em vista a interdependência de certas
atividades em série. - Permite etapas mais curtas tendo
em vista a possibilidade de atividades em paralelo.
Mão-de-obra - Maior diversidade
de ofícios. - Menor diversidade de ofícios.
Formas - Podendo ser sofisticadas,
em grande número e onerosas. • Ausência quase
que total.
Armações - Complexas.•
Consumo superior à alvenaria estrutural • Simples.•
Consumo inferior ao processo tradicional
Racionalização da obra - Complexa. - Simples.
Revestimento - Simples - Onerosos. - Simples - Econômicos.
Limpeza da obra - Difícil - Onerosa. - Quase desnecessária.
Modificações arquiteturais – Simples - Econômicas.
- Complexas - Onerosas.
Limitações arquitetônicas - Quase inexistentes.
- Exige projetos de concepção específica.
Modulação - Pode existir. - Existe, evitando cortes,
desperdício de material e limpeza na obra.
Tabela 2 - Construtibilidade da Alvenaria
Estrutural em relação ao processo Tradicional
Coordenação do processo
A Construção Civil por não se enquadrar
em características próprias da indústria
fabril, como a linha de produção com a repetição
do produto final, deve ter redobrado os cuidados inerentes à
coordenação do processo. Mesmo em torno desta configuração,
a utilização do processo em alvenaria estrutural
mostra-se, fortemente, suscetível à influências
da organização. O sucesso na implementação
de uma obra depende de alguns fatores interferentes no processo
construtivo. Podem-se ter fatores ora mais ligados ao gerenciamento
do projeto ou da produção e ora mais ligados a interface
projeto-produção. Pode-se ter, dentre outros, como
fatores intervenientes:
Concepção de projetos com características
próprias da padronização, coordenação
modular etc, objetivando maior rapidez e diminuição
de custos e qualidade do produto final. Retroalimentando o processo
não só na fase de produção, como também
com os resultados de desempenho quando em uso.
Gerenciamento de projeto Elaboração, definição
e divulgação de técnicas e métodos
capazes de aumentar a produção e melhorar a produtividade
e verificação do perfeito entendimento. Devendo-se
retroalimentar o processo, aproveitando a etapa de verificação.
Planejamento e programação, levando-se em conta
as características quanto à obra ser pública
ou particular, de forma que se tenha uma maior adaptabilidade
da empresa às contingências, bem como a retroalimentação
do processo quanto às soluções adotadas.
Notando-se que no planejamento e programação deve-se
deter uma parcela de sua formação para idealização
de um canteiro de obras otimizado.
Coo Controle sistêmico das etapas de produção,
levando-se em conta o projeto em potencial e a obra efetivamente
executada, e a retroalimentação do processo.
Rd Interface - Controle da qualidade do produto final, tendo
em vista o desempenho na fase de execução, na fase
de uso e a retroalimentação do processo.
Gerenciamento de projeto e A tecnologia empregada em relação
aos materiais, máquinas, equipamentos e ferramentas. De
forma que se possa verificar seu desempenho não só
na fase de projeto, como também na fase de produção.
Gerenciamento de produção - A velocidade e maneira
como circula a informação, de maneira que as soluções,
no que diz respeito às contingências ou mesmo na
programação determinada, possam se realizar, em
princípio, no menor tempo possível.
Maior conhecimento da mão-de-obra, mantendo-se, na cultura
da empresa, um cadastro com as respectivas qualificações
de forma que se tenha um melhor aproveitamento e enriquecimento
da mão-de-obra efetivamente aplicada.
Gerenciamento de produção Treinamento da mão-de-obra
de maneira a se obter maior cumplicidade entre o projeto e a execução.
Tendo em vista o aproveitamento das idéias favoráveis
a retroalimentação do processo, maior conscientização
da mão-de-obra quanto às características
inerentes ao processo, proporcionando, como conseqüência
um aumento da produtividade.
Incentivos, visto que o ser humano tem necessidades inerentes
a sua própria formação, devendo-se obter
uma mão-de-obra mais motivada, e, por conseguinte, um aumento
de produtividade.
Tabela 3 - Fatores intervenientes no processo da alvenaria estrutural
O processo alvenaria estrutural no Rio de janeiro
Em uma análise do estudo efetuado e da pesquisa de campo,
verificou-se existir uma dicotomia entre a prática e a
teoria. Separaram-se, então, algumas observações
em função das etapas da vida do produto: projeto,
execução e uso, bem como a coordenação
do processo.
Projeto
Quanto ao projeto, segundo o Diretor de uma empresa pesquisada,
responsável por projetos de 10 obras deste mesmo processo,
utilizando-se blocos cerâmicos, percebe-se que o peso e
as dimensões dos blocos dificultam sua utilização
e que aliado a este problema, tem-se a mão-de-obra que
não está habituada a utilizar um processo racionalizado
no qual os cuidados com a técnica de assentamento é
fator importante para o bom desempenho não só do
bloco como também da habitação. Sendo assim,
por exemplo, os cuidados quanto ao processo, no que diz respeito
ao nível e prumo das paredes, devem ser observados. Porém,
afirmou que a economia compensa as dificuldades, ressaltando ao
final a facilidade de execução do processo, pois
tem-se menores procedimentos construtivos e maior racionalidade.
Concluindo que em comparação com o processo tradicional,
o processo em alvenaria estrutural nos apresenta uma vantagem
em torno de 30% em custo no item alvenaria estrutural sobre o
item alvenaria de vedação mais estrutura tradicional
(concreto armado), informando ainda que, em obra recente, as perdas
em relação ao projeto restringiu-se a 2% do custo
total da obra.
Execução
Na execução, detectou-se como principal causa das
paradas e do retrabalho, a não conformidade dimensional
dos blocos. Com isso, tem-se alguns problemas, como por exemplo:
• Alterações no pé direito.
• Cotas que não fecham com a quantidade de blocos.
• Eixos dos capitéis das fundações
que não coincidem com os eixos das paredes.
• Dimensões dos vãos não coincidem
com as dimensões para assentamento das esquadrias.
Sendo assim, para perfeita adaptação, fizeram-se
necessários os cortes de blocos com uma ferramenta denominada
disco abrasivo, ocorrendo-se então, a perda de tempo e
o retrabalho. Às vezes, fiadas inteiras recortadas para
que a modulação fosse obedecida.
Em uma pesquisa elaborada pelo IPT, em Itu/SP, publicada na REVISTA
TÉCHNE (1994), veio à tona o problema que ocorre
nas indústrias de cerâmica vermelha. Após
testar 16 marcas de blocos, tal pesquisa chegou aos resultados
em que apenas 1 marca atendia a NBR- 7171/92 e que as outras falhavam
principalmente em relação às dimensões.
Informando: "Essa falha, além de dificultar o aparelhamento
das alvenarias construídas com os blocos, acaba gerando
um grande desperdício de argamassa de assentamento e de
revestimento."
Quanto à produtividade, segundo informações
obtidas no canteiro de obras, encontrou-se 1,5 m2 de parede/hora
ou 1 m2 de parede/0,66 h. Sendo interessante notar que na tabela
de composição de preços para orçamento
- TCPO 9 (1992), tem-se uma produtividade de 1 m2 de parede/0,36
h.
Entrando-se em contato com a diretoria da área de engenharia
da Editora Pini/SP, obteve-se a informação de que
a composição de preços baseou-se na técnica
de execução elaborada pela única indústria,
relacionada na pesquisa publicada na revista Téchne, que
atendia à norma. Por conseguinte, pode-se inferir que,
em razão dos blocos produzidos em conformidade com a norma
e o projeto, tem-se uma produtividade maior.
Verificou-se haver a necessidade de uma maior observação
quanto ao treinamento específico da mão-de-obra,
que deve ser aplicado após a implantação
de idéias de otimização do processo, de forma
que se possa observar melhor seus efeitos.
Quanto à técnica, detectou-se uma variação
nos procedimentos em função dos equipamentos de
trabalho utilizados. Encontrou-se na aplicação da
argamassa de assentamento a utilização de colher
de pedreiro, desempenadeira, palheta, porém não
se constatou a utilização da bisnaga. Sendo assim,
observou-se uma certa dificuldade em se ter métodos com
menor grau de interferência nas atividades, já que
os próprios procedimentos não são padronizados.
Quanto ao transporte dos blocos, percebeu-se que os meios deveriam
ser estipulados em função não só das
distâncias verticais ou horizontais como também em
função das características de concepção
do projeto, pois dependendo do layout da obra, podem-se ter alguns
meios inviabilizados.
Uso
Na fase de uso, obteve-se como grande preocupação
a trepidação, a facilidade de propagação
do som, a durabilidade da pintura em verniz e alguns poucos problemas
de vazamentos. Porém, de forma que se possa avaliar este
processo, utilizaram-se algumas exigências essenciais:
Quanto à segurança estrutural, o bloco cerâmico
mostrou-se satisfatório para a habitação
produzida pelo processo alvenaria estrutural não armada.
Segundo o arquiteto da obra localizada na Maré, entrada
da Ilha do Fundão/ RJ, tanto os blocos como as argamassas
e o graute foram testados e aprovados pelo Laboratório
L.A. Falcão Bauer.
Quanto à segurança ao fogo, IPT apud CAMPOS (1993),
tem-se que os blocos cerâmicos, em geral, são melhores
isolantes térmicos que os blocos de concreto, porém
estes mantêm sua resistência mecânica por mais
tempo. Ressaltando-se, porém, que a utilização
de revestimento melhora o desempenho térmico da parede
em ambos os casos.
Quanto ao isolamento acústico, IPT apud CAMPOS (1993),
tem-se que o isolamento mínimo para divisórias,
de maneira que se mantenha ininteligível as conversações
é de 50 dB, avaliando-se como tendente a satisfatório
os valores entre 40 e 50 dB e como insatisfatório os valores
menores que 40 db. Segundo TECNOLOGIA DE EDIFICAÇÕES
(1988), os blocos cerâmicos estruturais analisados são
adequados para constituição de divisórias
internas e de paredes de fachada, porém com ressalvas na
utilização em paredes comuns de habitações
geminadas. Sendo que a utilização de revestimento
melhora o desempenho acústico da parede.
Conclusões
No que diz respeito ao processo construtivo com alvenaria estrutural
em blocos cerâmicos, observou-se que se apresenta em amplo
desenvolvimento técnico e científico. Sendo necessário
dar maior ênfase a construtibilidade, à coordenação
do processo, à implantação de novas técnicas
e métodos construtivos, bem como melhoria da qualidade
dos blocos para que se tenha maior penetração no
mercado. Sendo assim, utilizou-se o Diagrama de Ishikawa ou de
Causa-Efeito para identificar algumas das necessidades do processo
alvenaria estrutural, de maneira que se obtenha a melhoria da
produção da habitação em blocos cerâmicos
estruturais. Fornecem-se, assim, alguns objetivos a serem alcançados.
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